Uma Folha no Vento

 

Deitada no sofá duro e desconfortável

Vejo a vida passar.

São 17:30 da tarde e os mosquitos sobrevoam meu corpo.

Talvez pensem que eu sou um monte de bosta

Ou que estou morta

Mas só estava vendo a vida passar.

 

Olho pela janela e vejo o céu azul

Um azul tão bonito que faz arder os olhos.

Compartilha a paisagem com o céu algumas folhinhas da árvore do vizinho

Que estão atravessadas por cima do muro

O sol é quente e as ilumina

Fazendo com que vários tons de verde contrastem

com o cinza do meu estado emocional

 

O vento bate

O vento sopra

E as folhas lutam para ficarem quietas e em paz

Elas tentam prosperar

Mas tem sempre o vento que as empurra para trás

 

Me senti uma folha no vento

Sem alento

Sou facilmente empurrada

Por não ter mais nada aqui dentro

 

Tem Gente

Tem gente que não tem personalidade

Tem gente que não tem criatividade

Tem gente que mesmo com a idade

Não agua a semente da maturidade

 

E, por finalidade,

Na maldade

Está sempre a copiar

As criações artísticas das amizades

A Vida É Fogo, Rapaz!

 

Eu havia combinado com meus amigos de irmos a uma reunião do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto que aconteceria no local em que eles ocuparam.  Informalmente chamado Glória, mas Bairro Elisson Prieto oficialmente, era uma ocupação de mais de 5 mil famílias que já haviam se assentado e a maioria das casas já tinham passado de barraco coberto com lona, para alvenaria. A Universidade Federal de Uberlândia, proprietária do terreno, não queria abrir mão de sua posse, portanto, corria no Ministério Público uma ação para a reintegração de posse da área, ou seja, tirar todas as famílias a força de lá e não se importar para onde irão posteriormente, se ficarão na chuva e se possuem lugar para guardar os móveis enquanto não arrumam outro lugar para ficar. Neste dia da reunião havia passado uma matéria no jornal local informando que a polícia, logo mais, sem avisos prévios, invadiria o bairro a fim de conseguir que a reintegração de posse se efetivasse, pois já estavam se preparando para uma invasão armada, com balas já contadas e também com a previsão de um número de ao menos 5 mortes e mais de 30 feridos.

Era um lindo e agradável anoitecer de sábado. Eu estava animada e ansiosa, pois havia acabado de entrar para o Movimento Estudantil da Universidade e, até então, nunca tinha tido contato tão próximo com temas políticos. Eu até tinha noção da seriedade do problema daquelas pessoas, mas, para mim estava sendo uma aventura divertida. Fazia pouquíssimo tempo que possuía a tão sonhada carteira de motorista e um dos motivos por eu estar tão contente é que iria dirigir até lá. Me comprometi a levar quatro pessoas em meu carro para a reunião que aconteceria às 19 horas.

A entrada do bairro ficava a alguns poucos quilômetros da cidade. Olhando para cima, lá longe, podia-se ver uma forte luz laranja iluminando o céu. Imaginei que era ali que as pessoas estariam concentradas. Saindo da rodovia, à direita, a estrada era de terra e terrivelmente esburacada, a ponto de termos que andar ziguezagueando pela pista a menos de 10KM/h. O mato dos dois lados media mais de 2 metros de altura, não tinha sinalização, e muito menos iluminação. Comecei a ficar com medo, não sabia o que estava por vir. O preconceito engendrado e perpetuado pela mídia começou a falar mais alto em mim, então meu coração disparou, o desconfortou tomou conta e a boca secou. As mãos inquietas e suadas no volante tornavam cada vez mais difíceis as manobras no terreno irregular. Quase chegando no bairro, as quadras eram depósitos de lixo a céu aberto,  e, devido ao fato de a ocupação, aos olhos da lei burguesa, ser irregular, lá não havia coleta de lixo nem saneamento básico. O cheiro azedo, para quem não está acostumado, era difícil de suportar. Entrava rasgando pelas narinas causando dor aguda por testa e têmporas.  O risco de doenças era altíssimo.

Com todas essas impressões, segui dirigindo. A luz que havia visto lá da rodovia estava se aproximando. Enquanto procurava a rua certa para virar, por estar bem devagar, avistei um morador revirando o lixo e comendo alguma coisa por ali com a boca cheia. Ele parecia estar saboreando um verdadeiro banquete. O vi fechar os olhos e suspirar de prazer. Um suspiro demorado e sincero que me fez ficar confusa: não sabia se me sentia mal o vendo comer coisas do lixo, ou se ficava em paz porque ele parecia estar bem feliz naquele momento. Daquele momento em diante, aqueles preconceitos que estavam impregnados em mim começaram a se desmantelar. Foi como se estivesse sendo vendada por toda minha vida e, finalmente, consegui me livrar desta venda. Enfim, eu estava enxergando. E isso não quer dizer que minha vida melhorou… Eu escolhi sempre enxergar a verdade, a verdade além da mídia e, essa escolha faz sofrer muito, porque a partir do momento em que nos livramos da enganação, conseguimos perceber o quanto o sistema nos oprime.

Ao pensar nisso, virei uma esquina e me deparei com uma das cenas mais fortes que já presenciei em toda minha vida. Aquelas luzes que achei serem iluminações artificiais elétricas era uma queimada que ultrapassava a altura da casa mais próxima, chegando a quatro metros. Como já era noite, tudo em volta estava totalmente escuro. Apenas o fogo produzia luz. Eu nunca tinha visto tantos tons de cores quentes em toda minha vida. As chamas nasciam amarelas fortes, iam contornando os matos e madeiras e iam subindo a fim de encontrarem o céu, transcendendo e transmutando-se em variados tons de laranja. As faíscas, mais destemidas, desprendiam-se do todo, a fim de alcançarem maior altura. O fogo estava tomando conta de tudo. Quanto mais eu chegava perto, mais forte eu podia sentir o calor em minha pele. Instantaneamente, brotou a primeira gota de suor por entre os fios do meu cabelo. Eu fiquei hipnotizada com os movimentos dançantes que o fogo produzia e, de espanto, mal conseguia fechar a minha boca. Era impossível desviar o olhar. Aquela dança, mais me parecia um ritual… talvez um ritual da mãe natureza, de tão místico, envolvente e energeticamente forte. Já com o rosto todo impregnado de suor, somente por estar mais próxima do fogo, que meu cérebro reconheceu que, no pé daquela fogueira gigante, duas crianças estavam brincando ali, dançando no mesmo ritmo do fogo.

As crianças, que não deviam ter mais do que 6 anos de idade, vestiam apenas calcinha e estavam descalças. Seus cabelos eram desgrenhados e bem volumosos. Por estarem em frente ao fogo, somente podia-se ver suas sombras e silhuetas. Corriam de um lado para o outro parecendo não estarem sentindo o calor. Era como se já tivessem nascido no inferno e a sensação térmica, por costume, fosse amargamente irrelevante. Abriam os braços e tentavam mexer seus corpinhos de acordo com o movimento das chamas, e como se fossem maestras, comandavam o soar da canção hostil que nascia do estalar da madeira ao ser envolvida e dominada pelo fogo que de forma assassina e inescrupulosa consumia o oxigênio a fim de tornar-se cada vez mais forte. Seus pés descalços também pareciam não sentir as faíscas que, ao tentarem subir, perdiam suas forças e, numa queda livre, tendiam ao chão. Antes, parecia ser o fogo quem ditava o ritmo, mas depois, ao observar bem, ele não mandava em nada. Quem comandava o ritual eram essas pequenas meninas e senhoras do fogo. Senhoras de seus próprios destinos.

 

A Praia e o Rio

 

Desde criança, sempre fui muito curiosa sobre tudo: lugares, coisas, fatos e histórias de vida. Minha mãe se esforçou ao máximo para suprir meus anseios e me proporcionar todo o apoio do mundo para que eu pudesse alcançar o que desejava descobrir e conhecer. Entretanto, pelo fato de viver um relacionamento extremamente abusivo com meu pai, as decisões de peso sempre eram dele, mesmo que ela tivesse uma opinião diferente. Sempre expressei minha profunda vontade de viajar, mas as prioridades do meu pai eram outras. Egoísta, ele nunca se importou com nossas vontades, preferências e sonhos, pois fazia planos que só envolviam seus próprios quereres. Sempre gastou todo o dinheiro com bebidas alcóolicas dos mais variados tipos e com acessórios, pinturas, rodas e tudo mais que envolve o universo de carros equipados.

Ele nunca se dispôs a pagar um clube, um cinema, um plano de saúde e, quem dirá uma viagem. Minha mãe sempre dizia: “Ano que vem vamos para a praia e você vai conhecer o mar! Vou ver com seu pai se ele me ajuda a pagar as mensalidades…”, mas o ‘ano que vem’ chegava e meu sonho continuou esperando para se tornar realidade. Minha mãe não podia se comprometer a pagar sozinha, pois já pagava meu inglês, estava sempre endividada por pagar minhas roupas e sapatos, remédios, corte de cabelo e cuidar para que nunca faltasse nada. Ele nunca se importou com meus sonhos, nem com os da minha mãe.

A infância passou, a adolescência passou e, por fim, consegui ingressar numa universidade federal. Me mudei da minha cidade natal para estudar e conheci uma nova realidade. Consegui ganhar uma bolsa para pagar as contas e os centavos que sobravam eu guardava, pois não tinha desistido de conhecer o mar. Três anos se passaram e a oportunidade surgiu!

Combinamos de ir eu e um casal de amigos. Pegamos o ônibus das sacoleiras com destino a São Paulo. O benefício é o preço, por ser muito mais barato que a linha convencional, embora haja um alto risco de assalto, visto que os ladrões já sabem o tipo de ônibus que transporta pessoas com altas quantias em dinheiro a fim de comparem roupas no Braz e as trazerem para revende-las. Por sorte, nada nos aconteceu pelo caminho. Chegamos por volta das 05:00hrs da manhã, pegamos um taxi e fomos direto para a rodoviária a fim de esperarmos até dar o horário em que sairia o ônibus rumo à Paraty. Compramos a passagem, mas a próxima saída era somente às 10:00hrs da manhã.  A espera foi agoniante. Tudo era extremamente novo pra mim e eu não conseguia parar de tirar foto de tudo o que via pela frente. Era possível ouvir pessoas comentando “nossa, mas essa menina tira foto de tudo, que horror!”; “ela ‘tá aí’ há mais de duas horas tirando foto de tudo”. Eu apenas sorria e ignorava os comentários, por não querer perder um minuto de aventura enquanto explorava aquele lugar.

Finalmente, apontou no relógio, o horário de pegar o ônibus! A felicidade não cabia em mim e eu não desgrudava o olho da janela um minuto sequer, para que não perdesse nada. Arregalava os olhos pensando ser esta a forma mais eficiente de guardar todos os detalhes na minha mente para sempre. Após algumas horas de viagem, contornamos a primeira curva da serra e avistei o mar lá longe. Aquela imensidão azul invadiu o meu peito fazendo meu coração palpitar e ofegante estar, a ponto de faltar o ar. Não consegui sentir nem ao menos o enjoo ao descer a serra. A cada quilometro superado, o mar estava mais próximo e minha inquietação tornava-se mais difícil de lidar. O brilho dos meus olhos se confundiam com os raios solares daquele dia que parecia estar acontecendo especialmente para mim. O céu sem nuvens, o sol quente e o coração ardente, tornava tudo perfeito para que o primeiro encontro ocorresse e se tornasse um inesquecível presente.

Após duas horas, chegamos no camping e gastamos alguns minutos montando as barracas. Enquanto arrumava minhas coisas, assobiava uma doce canção de felicidade, jamais ouvida antes, composta naquele momento especial e que jamais conseguirei reproduzi-la novamente. Já estava um pouquinho mais calma, mas a vontade de largar tudo e sair correndo tomou conta de mim e assim o fiz. Ao correr, ofegante, entraram por minhas narinas, cheiro sabor de maresia e por meus ouvidos o som das ondas. Na minha cabeça, eu já estava criando um filme de como seria. Meus sentidos não me decepcionaram e me levaram exatamente para o caminho certo. Enfim, o vi. Ali, pessoalmente, suspirei de forma lenta e profunda e me permiti abrir um dos sorrisos mais sinceros de toda minha vida. Tirei os sapatos, pisei na areia, relaxei os dedos e comecei a acariciar a areia com eles. Após alguns minutos ali, ergui a cabeça e fui caminhando em direção ao mar, e, aos poucos foi surgindo dentro de mim uma plenitude jamais sentida antes. Pela primeira vez na vida, senti que realmente pertencia a algum lugar e tive a certeza de que a vida pode ser e é muito mais que a rotina, de que a coisa mais preciosa que temos é a existência da natureza com sua grandeza, diversidade e riqueza. Enquanto transcendia, finalmente meus pés alcançaram a água e todos os cantos e partículas que constituem meu corpo se eletrizaram. Eu não poderia estar mais feliz!

Sete dias insanos se passaram e a pessoa que chegou lá já não era mais a mesma que estava agora partindo.

Pegamos o ônibus de Paraty com destino ao Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, pois dormiríamos uma noite na cidade, para depois voltarmos. Da rodoviária, era necessário pegar o metrô para chegarmos ao local que nos acolheria e eu não poderia estar mais eufórica, agitada, feliz, me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo, apenas por ter a oportunidade de andar de metrô. Os meninos me falaram que iríamos para a Rodoviária Tietê, mas nunca imaginei que esse nome dado a ela, seria pelo fato de estar localizada muito próxima ao famoso rio Tietê, comumente retratado na grande mídia. Totalmente animada, entrei no metrô e estava achando tudo muito maravilhoso, como por exemplo, a eficiência do transporte, a qualidade da estrutura, o espaço, a voz da moça explicando o nome da estação e nem tive tempo para pensar em mais nada. Foi tudo muito rápido e, minutos após entrarmos no metrô, ele saiu do túnel e os raios solares das três da tarde atingiram meus olhos, causando extremo desconforto, a ponto de eu fecha-los com muita força. Com as duas mãos os esfreguei e então os abri novamente. Já assimilados com a luz, eles enxergaram uma coisa da qual nunca se esquecerão. Uma decepção tomou conta do meu ser, meu ouvido começou a zunir, minhas pernas bambearam, a respiração tornou-se ofegante e irregular e comecei a suar frio, de nervoso. A boca secou e o incomodo dos lábios grudando um no outro estavam me deixando à beira de um surto. Troquei a perna de apoio, por incômodo, de duas a três vezes. Isso tudo não durou mais do que quinze segundos. O que os meus olhos viram, eu jamais vou esquecer, e eu nem precisei arregala-los para tentar gravar para sempre na memória as imagens que passavam diante deles. Eu apenas precisei olhar uma vez.

Lá longe, na beira do rio Tietê, avistei uma família cozinhando o que talvez seria sua primeira refeição do dia, em uma lata de tinta toda amassada e enferrujada. O sol estava tão quente, que podia-se observar o efeito causado pelas refrações na camada de ar quente, dando a impressão de que o chão estava molhado e em movimento. O pai foi na beira do rio, pegou um pouco de água com a ajuda de um potinho de manteiga, e jogou na lata. Pelo rio, desciam através da correnteza, espumas e outras coisas com formatos irreconhecíveis,  gigantescas e também de outros tamanhos boiando naquela água escura. Duas, das três crianças, estavam em volta, com os olhos vidrados dentro da lata, que era aquecida por uma fogueira improvisada. Pude sentir, o quanto aquelas menininhas queriam o que estava sendo cozido. A outra criança estava sentada numa estrutura de sofá, em que já não restava mais pano nem espuma. Ela parecia muito distante… talvez, tenha se perdido em seus próprios pensamentos e resolveu não querer voltar para a realidade.

O metrô passou, mas aquelas sensações e cenas ficaram e me marcaram de tal maneira que não consegui mais sentir e ao menos lembrar de como eram todas aquelas coisas boas que me preencheram por toda a semana. Me coloquei no meu lugar e comecei a pensar em todas as coisas que costumavam me deixar triste e que se findavam em longas reclamações. Pensei imediatamente na minha mãe; imaginei como ela se sentiria se fossemos eu e ela naquela situação, como ela se sentiria tendo que pegar água do rio mais poluído do mundo para cozer nosso alimento, quais esforços teria que ter para minimamente termos o que comer. Assim, submersa em pensamentos e questionamentos, permaneci em silêncio meditativo o resto do dia.

Percebi que, enquanto não nos colocarmos ao menos um pouco no lugar do outro, nada irá melhorar. Continuaremos exercendo o egoísmo, o individualismo e pessoas, assim como a natureza, serão tratadas como lixo, como descartáveis, como insignificantes e serão exploradas até que não reste nenhuma folha de capim verde e nenhum coração com sonhos de um mundo em que o dinheiro não seja o ditador que estipule a importância das relações sociais e interpessoais.

 

O Mito da Democracia Racial

Mulheres Negras “da cor do pecado”
Que tiveram e tem seus corpos violados
Somente para domínio e poder
Do homem branco para se auto satisfazer

A hiperssexualização e objetificação
Dos corpos das mulheres em questão
Resultam em estupros, violência doméstica e vários outros tipos de opressão
E, com seus sentimentos banalizados e direitos negligenciados
Há 500 anos, são esquecidas pelo Estado

Será que existe mesmo a tal democracia racial?

Então, porque o Brasil é o único a construir prédios com elevador exclusivo para serviçal?
Porque ainda há, entre brancos e negros, tamanha diferença salarial?
Porque é tão ínfima a presença de negros na Câmara dos Deputados e Senado Federal?

Basta abrir os olhos
E querer enxergar

Se antes os brancos eram donos do cafezal
Hoje, comandam o meio empresarial e o setor industrial.
Suas riquezas permaneceram, e até engrandeceram
Só mudaram o ponto focal

Basta abrir os olhos
E querer enxergar

Se antes o sistema era regido pela escravidão
Hoje, vivemos a era da terceirização

O tempo passou e o Brasil se modernizou.
O que mudou, afinal?

De mão de obra escrava, para superexploração
De mucama, para “como se fosse da família”
De mulata, para vadia
De Rio de Janeiro para Brasília

Qual é a nossa real situação?

Desde o primeiro mandato de Getúlio Vargas, uma tradição
Das perdas, a socialização
Já, dos ganhos, a total alienação

Qual é a cor do seu mundo?

Eu estava trabalhando muito, a fim de coletar entrevistas para terminar um trabalho absolutamente importante para mim, o qual o prazo se findaria na sexta, dia 17. No dia 10, uma semana antes, após muita insistência, ligando em vários lugares de forma exaustiva, consegui marcar uma conversa para o dia 13, segunda-feira, às 08:30 da manhã. Animada, prossegui com as ligações e a próxima que me atendeu, marcou comigo também na segunda, no mesmo horário. Fiquei agitada e não parava de pensar como eu faria para estar em dois lugares ao mesmo tempo. Óbvio que eu não conseguiria… Finalmente, uma ideia! Minha saída foi elaborar uma estratégia: “posso chegar mais cedo em um lugar, colher os relatos, e depois ir correndo para o outro local”. Fiquei orgulhosa de mim e me senti muito astuta, e assim, ficou combinado na minha mente.

O que eu não esperava, era que minha gripe pioraria drasticamente no fim de semana. Almoçando anti-inflamatório e jantando antibiótico, vivi esses dias suando frio e a base de tosses, pigarros e gemidos de dor. No domingo, minha voz estava irreconhecível e eu não conseguia pronunciar 3 palavras sem que precisasse fungar o nariz, ou assoá-lo. Minha gripe havia piorado: meus ouvidos latejavam, minha garganta estava extremamente inflamada e meu nariz totalmente obstruído.

Coloquei o despertador para as 06:30 de segunda-feira. Ele tocou. Eu desliguei. Não acordei. Me dei muito mal. Acordei às 10. Levantei correndo e fui direto para o banho. Saí de casa às 10:30.

No primeiro lugar que fui, foi ótimo e deu tudo certo, entretanto, não me deixaram usar o gravador. Tive que anotar os tópicos no caderno, à mão livre, muito rápido. Fiquei muito triste e decepcionada, pois estava ouvindo uma história única, envolvente e eu não poderia reproduzi-la com os mesmos detalhes vívidos que me fizeram sentir o que senti ao ouvi-la, tendo em vista que não me lembraria de todos. Mesmo assim, me esforcei ao máximo. O papo acabou e agradeci repetidas vezes profundamente, de coração, a pessoa que, ao me contar de sua vida, me fez crescer muito como ser humano.

Correndo, fui para o carro, a fim de dirigir o mais rápido possível para chegar no outro local que havia combinado.  Chegando lá, essa segunda coleta não foi nada do que eu havia esperado ou o que precisava. Tentei utilizar meu tempo me deslocando a outros locais, mas infelizmente ninguém pôde me atender. Por fim, decidi voltar pra casa. A sensação era de que eu havia sido atropelada por um trator gigante. Minha cabeça não parava de martelar, me torturando ao me fazer pensar que não iria dar tempo de entregar tudo pronto. Eu estava cansada, muito doente e as desilusões e medos me deixaram pior.

Voltei dirigindo e pensando no quanto estava decepcionada comigo mesma por não ter me esforçado mais, para que pudesse dar tempo de finalizar tudo. A minha manhã estava sendo extremamente difícil, bom, pelo menos dentro dos meus padrões privilegiados de dificuldade. Finalmente cheguei em casa, o sol apontava no centro do céu sinalizando o meio dia. Enquanto pegava minha mochila no banco do passageiro, desligava o som e todos os outros procedimentos  para sair do carro, olhei pelo retrovisor esquerdo e avistei uma senhora negra, vestindo uma blusa cinza, uma saia cinza e um chinelo de dedo preto a ponto de arrebentar. Ela carregava cerca de sete sacolas transparentes na mão direita, nas quais podia-se observar, haviam batatas, laranjas, mangas, abacaxis, maçãs e outros.  Na mão esquerda carregava uma melancia inteira. A rua era bastante íngreme, o sol estava escaldante, e aquela mulher monocromática que apresentava o semblante mais triste e exausto que meus olhos já viram, subia com dificuldade a ladeira. A junta de seus dedos, pelo peso das sacolas, já se arroxeavam, mas não era possível que ela trocasse de mão, por estar carregando a melancia. A sua agonia causada pela dor e desconforto eram perceptíveis quando tentava ajeitar o braço ou mexer minimamente algum dedo. Trocando os passos lentamente, mal levantando os pés do chão, ela prosseguia os arrastando e, apesar de todo o barulho do trânsito, eu podia ouvir o som de seus chinelos sendo arrastados no chão.  No momento em que ela passou por mim, avistei uma gota de suor escorrendo de sua testa. Os raios solares o fizeram bilhar.  Percebi e entendi que não é somente o glamour que brilha e que a vida tem lá suas subjetividades, seu modo de fazer alguém ou alguma coisa brilhar. Aquela mulher brilhou para mim, se tornando o centro de minhas atenções.

Ela se posicionou atrás de um carro importado, alto, reluzente e muito imponente. Aqueles tipos de carros que possuem uma cara de mau. Parou, suspirou, encarou o porta-malas,  olhou para a direção de onde veio e abaixou a cabeça como quem estivesse esperando sua sentença, como um escravo que tentara fugir para um quilombo, foi pego pelo capitão do mato e sabia que as chibatadas de seu senhor branco estavam por vir, como o olhar de um judeu ao ser encontrado escondido debaixo da cama ou dentro do armário por soldados da SS, como uma mulher que não aguenta mais o peso do racismo estrutural nas costas, mas tem que suportá-lo pois não há alternativa. Eu continuei a observando e ela se tornou meu mundo naquele momento, não desviei o olhar nem por um segundo.

De repente, vem subindo uma mulher com trajes de academia, em que cada peça de roupa era de uma cor florescente: a blusa laranja, os shorts verdes, meias roxas, um chapéu extravagante e um tênis Nike daqueles que custam 500 reais. Ela apresentava uma felicidade tão radiante que o seu caminhar a fazia parecer estar numa dança, ou flutuando. Talvez seja pelo fato de não precisar carregar sacolas para os outros… A moça se aproximou do carro, estendeu seu braço e apertou um botão no controle que estava em sua mão. Repentinamente, soou o barulho do alarme, as portas se destravaram e o porta-malas abriu sozinho, automaticamente.  A mulher monocromática colocou as compras dentro do carro e seguiu para a porta da frente, mas imediatamente foi interceptada por gritos agudos: “- EU NÃO TE FALEI QUE EU IRIA BUSCAR O GUIZINHO AGORA NA NATAÇÃO E O LUGAR DELE É NO BANCO DA FRENTE? QUANTAS VEZES TEREI QUE REPETIR QUE SEU LUGAR É ATRÁS?” A moça monocromática, que já havia aberto a porta, estremeceu e num impulso a fechou. Calada, manteve sua cabeça baixa e seguiu as ordens.

Até quando o mundo será dividido entre colorido e cinza? Até quando o mundo será divido entre banco da frente e banco de trás? Até quando a sociedade brasileira será divida entre quem carrega as sacolas e quem aperta o controle do alarme do carro?

Suspirei e engoli o choro. Entrei dentro de casa bebi um copo d’água que mais parecia jiló, de tão amarga. Não reclamei de mais nada até à noite. O resto do meu dia perdeu a intensidade de suas cores. O vivi em tons pastel.  Queria eu ter um pincel…